"Relato do Urubu Anônimo"


            Prezados colegas de vôo, quero contribuir com esta narração, verídica, que talvez contribua como ensinamento para a nossa comunidade voadora.

            O meu relato sem dúvida será mais estarrecedor que o dos Sobreviventes da Croácia. Além disso, a minha babaquice é genuinamente nacional, ocorrida dentro dos limítrofes nordestinos.

            Mês de janeiro, mais precisamente dia 15 de janeiro de 1984. O relógio estampava em seu visor os dois ponteiros um sobre o outro, como se estivessem fazendo amor. Meio-dia. Esta era a hora.. Como nesta terra nem capim Anôni cresce devido à seca, claro que chuva nem pensar. 

            Como não havia montanha por perto, eu e um amigo levamos engatado no Jeep Willians, até o açúde Orós, cujo nome é o mesmo do município cearense, uma lancha para a decolagem rebocada. 

            O dia estava prometendo termais fortíssimas, tanto é que no caminho passamos por um jegue ascendendo em espiral num dust devil daqueles. Mais adiante dois Carcarás fechavam orelhas, na verdade encolhiam as asas, e subiam feito um foguete lançado pela Nasa.  Esfreguei as mãos como que dizendo “é hoje”.

            Chegamos ao açúde Orós. Equipagem rápida. Em seguida já roncavam o motor da potente lancha. Não foi preciso muito e a corda no carretel se esticou por inteiro, levantando-me a quinhentos metros em dois segundos. Claro, de imediato desengatei. O meu Kayser, da Fun Gliders ( a fábrica do Ary Pradi ainda não havia se metamoforseado em “Sol”) estampou no céu azul. 

            Como naquela época eu ainda não tinha um vario, voava com um Altimaster (quem é do páraquedismo sabe do que estou falando). Em pouquíssimos segundos a marcação (em pés) já apontava 8.500. Que pavor. Mas a altura era nada. O ruim era a sensação de ser chupado. Quem já foi chupado com violência sabe do que estou falando...

            Subir na vertical vendo a vela literalmente bicuda em velocidade descomunal é algo que não desejo para ninguém. Eu sabia que as terminas no Ceará, especialmente naquela região de Orós, eram violentas, mas não imaginava o quanto... 

            Talvez vocês não acreditem, mas enquanto eu subia daquela maneira até então inimaginável, passou por mim em velocidade ainda maior um caboclo segurando um guarda-chuva – que usava para se proteger do sol -, gritando “vigi, meu Padim Padi Ciço, bem qui a Severina mi dissi prá esperá às seis da tarde pra saí di casa ôji. Moooçoooooo, pra ti vai sê pio, com esti guarda-chuva maióóóóóóóó”....e lá se foi ele.

            Temi que a vela fechasse, mas sequer havia tempo para isso. Pensei: “bem, pressão tem bastante. Fechar não vai. Mas como vou fazer o paracá descer?”. Desespero. Olhei para baixo e o grande açude de Orós não parecia ser maior que uma gota d’água, tipo a de urina quando teimamos em errar o vaso sanitário da hora de mijar. 

            Mil e uma idéias passaram por minha cabeça, mas que, imaginei, não dariam resultado positivo. Olhei para o lado e vi um vulto preto subindo também em grande velocidade. Imaginei ser um urubu. Que nada. Era o padre de Orós que passava pelo local naquele momento e a violenta termal o pegou por baixo da batina. De mãos postas e fazendo o sinal da cruz, o padre exclamava: “Ai, ai, ai! Que eu ia para o céu eu sabia, mas imaginava que seria deste jeito, vivo mesmo”. Daí vi que a minha situação era realmente crítica. 

            Veio-me à cabeça cortar os tirantes do parapa e mandar o reserva, idéia que abandonei de imediato. O reserva subiria do mesmo jeito. Fiz o sinal da cruz, me benzi três vezes e me desvencilhei dos equipamentos. Vou despencar em queda livre em “dive”. Se normalmente, num dive, a minha velocidade seria de, mais ou menos, 250 km por hora, com a porradeira desta térmica vou entrar nas águas do açúde Orós a dois por hora. 

            Claro, vocês poderão pensar: mas se um sertanejo e um padre subiram a mil, como este cara vai cair. Fácil. Eu estava sem batina e sem guarda-chuva, além do mais dominava as técnicas de queda livre e um dive para mim era sopinha. Fiz. Uma lentidão. Demorou quarenta e três minutos para que eu entrasse nas águas do Orós. Mas vocês também poderão perguntar: como uma térmica destas, se na água não se formam termais? Respondo: vocês que não conhecem as águas do Orós num dia como aquele. Ela ferve e a evaporação gera aquela coisa louca. Podem acreditar.

            Não posso fizer que mergulhei no açúde e fiquei são e salvo. Ainda bem que o meu companheiro de aventura, quando viu a coisa feia, amarrou bem a lancha no tronco de uma árvore seca que havia às margens. Está certo que ela ficou flutuando no ar, mas que não voou alto, ah isto não voou mesmo. Eu, não quebrei nada, ainda bem, mas ainda hoje preciso uma vez por ano comparecer à clínica do doutor Pitanguy fazer uma cirurgia plástica para me recompor das queimaduras de 18º a 25º graus que sofri quando mergulhei nas ferventes águas do Açúde Orós, lá no Ceará.

            Ah, a minha velha Kayser, com selete, reserva e tudo, foram encontrados três meses depois lá na África, em meio a uma tribo pouco evoluída. Eles passaram a reverenciar o equipamento como se fosse um deus vindo do céu. O mal entendido só foi desfeito quando um missionário americano os visitou. Ele verificou o equipamento de perto, esclarecendo aos nativos o que se tratava. E arrematou: “pertencia a um brasileiro e lá das bandas nordestinas”. Ué, mas como o missionário sabia disto? Ele viu no assento da selete uma mancha escura, cheirou e viu tratar-se de merda.... aquilo era resto de puro jerimum, com paçoca e macacheira...”

URUBU ANÔNOMO

 




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